Híbridos de braquiária apresentam maior potencial de produção e qualidade nutricional, mas especialista alerta que genética precisa estar associada à fertilidade, manejo e desempenho animal para gerar retorno econômico.

A escolha da forrageira pode determinar o teto produtivo de uma pastagem durante vários anos. Com o avanço do melhoramento genético, híbridos de braquiária vêm ampliando as possibilidades de intensificação, com materiais capazes de produzir mais matéria seca e apresentar melhores indicadores de qualidade nutricional. O resultado no campo, entretanto, depende da combinação entre genética, fertilidade do solo, manejo do pasto e capacidade dos animais de transformar a forragem em carne.
Para o engenheiro agrônomo e diretor da Duagro, Eloir Daltoé, a escolha do capim deveria começar pela definição de quanto o produtor pretende produzir e obter de retorno por hectare, e não apenas pelo preço da semente ou pela preferência por determinada cultivar.
“A primeira pergunta não é qual capim ele quer plantar ou quanto pretende gastar em semente. A pergunta é: quanto ele pretende produzir e ganhar por hectare? Qual é o resultado esperado desse sistema?”, afirma.
A partir desse objetivo, entram no planejamento fatores como capacidade de lotação, fertilidade, condições ambientais, nível de intensificação, manejo e distribuição da produção de forragem durante o ano.
Diferentes forrageiras podem se complementar
Segundo Daltoé, não existe uma forrageira perfeita para todas as propriedades. O mais importante é identificar o material — ou a combinação de materiais — que melhor responda às características e aos objetivos de cada sistema.
Nesse planejamento, Panicum e braquiárias, por exemplo, podem ocupar áreas diferentes dentro da mesma propriedade e contribuir para uma oferta de pastagem mais equilibrada ao longo do ano.
O Panicum apresenta rebrota mais rápida na primavera e responde intensamente ao aumento da luminosidade e da temperatura. As braquiárias, por sua vez, têm retomada mais gradual, mas se destacam pela rusticidade e estabilidade.
Na transição do verão para o outono e inverno, outra diferença se torna importante. Enquanto o Panicum tende a reduzir mais rapidamente sua atividade e apresenta florescimento mais precoce, as braquiárias podem conservar folhas verdes e ativas por mais tempo.
O sistema radicular das braquiárias também favorece maior exploração do perfil do solo, contribuindo para adaptação a diferentes ambientes e tolerância ao estresse hídrico. Já os Panicum, de maneira geral, apresentam maior exigência em fertilidade.
“Não penso simplesmente em escolher entre Panicum ou braquiária. Penso em como combinar essas ferramentas para produzir mais, com qualidade e segurança ao longo do ano”, explica.
Híbridos chegam a produzir mais que materiais tradicionais
O avanço do melhoramento genético tem colocado no mercado forrageiras com maior teto produtivo. De acordo com Daltoé, ensaios de Valor de Cultivo e Uso (VCU) mostraram híbridos de braquiária com produção entre 36% e 42% superior à do capim-marandu, inclusive em condições de menor investimento e fertilidade.
A diferença não se restringe à quantidade de forragem produzida. Segundo o agrônomo, experiências com alguns híbridos têm registrado teores de proteína bruta entre 16% e 20% e digestibilidade de 65% a 73%.
Em braquiárias convencionais, ele aponta que são encontrados com maior frequência valores próximos de 12% de proteína bruta e digestibilidade entre 55% e 60%. Os números, porém, variam conforme fertilidade, manejo e estágio de desenvolvimento das plantas.
O desempenho animal também pode responder à diferença de qualidade. Conforme os dados apresentados por Daltoé, híbridos vêm alcançando produção de 80 a 100 quilos de carne por tonelada de matéria seca, enquanto materiais convencionais ficam, com maior frequência, entre 50 e 70 quilos.
“Temos dois ganhos simultâneos: mais forragem por hectare e uma forragem de maior qualidade. Isso permite aumentar a capacidade de suporte e, ao mesmo tempo, potencializar o desempenho individual dos animais”, afirma.
Alguns híbridos também apresentam florescimento mais tardio, característica que permite às plantas permanecerem vegetativas e com folhas verdes por mais tempo no final do verão e durante o outono, prolongando a janela de utilização da pastagem.
Preço da semente não deve ser único critério
O investimento inicial na implantação da pastagem é outro aspecto que precisa ser analisado dentro de uma perspectiva de longo prazo. Uma área formada atualmente pode permanecer produtiva durante cinco, seis, oito ou até dez anos.
Por isso, Daltoé considera que comparar materiais somente pelo preço da semente pode levar o produtor a escolher uma genética com menor potencial produtivo e permanecer durante anos com um teto de produção inferior.
“Semente é custo de implantação e a genética é potencial produtivo para vários anos”, destaca.
A análise econômica, portanto, deve considerar não apenas quanto custa estabelecer a pastagem, mas quanto aquele material pode contribuir para produzir carne e gerar receita por hectare ao longo de sua vida útil.
Manejo determina quanto da genética chega ao animal
O potencial genético, isoladamente, não garante maior produtividade. Para que uma forrageira de alto desempenho expresse suas características, é necessário oferecer condições adequadas de fertilidade, adubação e manejo.
Entre os fatores considerados estão disponibilidade de nitrogênio, divisão das áreas, altura de entrada e saída dos animais, período de descanso e oferta adequada de forragem.
“A genética determina o potencial, mas o manejo define quanto desse potencial conseguimos expressar dentro da fazenda”, resume Daltoé.
O objetivo também não deve ser simplesmente produzir grandes volumes de matéria seca. A forragem precisa chegar ao animal no estágio adequado, com boa proporção de folhas, proteína e digestibilidade para favorecer o consumo e o ganho de peso.
Diferenças aparentemente pequenas no ganho médio diário podem assumir outra dimensão quando consideradas a lotação por hectare e a duração do período de pastejo.
Para o especialista, genética, manejo e animal devem ser analisados conjuntamente. A genética determina o potencial da planta, o manejo transforma essa capacidade em forragem disponível e de qualidade e o bovino converte o alimento em produto.
Resultado por hectare deve orientar intensificação
Daltoé defende que a avaliação das pastagens avance além do indicador tradicional de toneladas de matéria seca produzidas por hectare. A análise deve considerar quanto dessa forragem efetivamente se transforma em carne e, posteriormente, em resultado econômico.
O tema será abordado pelo engenheiro agrônomo durante o Encontro de Intensificação e Pastagens, marcado para os dias 23 e 24 de setembro, no Multiplan Hall do Ribeirão Shopping, em Ribeirão Preto (SP).
Na apresentação, Daltoé pretende mostrar resultados de pesquisa, ensaios de VCU e experiências de campo com híbridos de braquiária em propriedades com diferentes condições de fertilidade e níveis de intensificação, especialmente no Sul do país.
A discussão também deverá abordar qualidade nutricional, capacidade de suporte e comportamento das forrageiras ao longo das estações.
“Intensificar não significa simplesmente colocar mais animais por hectare. Intensificar é utilizar melhor solo, genética, planta, manejo e animal para produzir mais resultado sobre a mesma área”, conclui.
>>>Encontro de Intensificação e Pastagens www.encontros.scotconsultoria.com.br
Fonte: Scot Consultoria
Curadoria: Camila Gusmão para o portal Boi a Pasto






