Propriedade de Constantina perdeu cerca de 70% do trigo destinado à silagem e precisou ampliar o fornecimento de ração, silagem e matéria seca para manter a produção das vacas.

Duas chuvas de granizo registradas no início de setembro mudaram a rotina de uma propriedade leiteira de Constantina, no Rio Grande do Sul. Com pastagens destruídas e perda de aproximadamente 70% da área de trigo destinada à silagem, a família precisou aumentar o fornecimento de alimento no cocho para tentar preservar a produção de leite.
Os prejuízos ocorreram na propriedade Família Bernieri, conduzida pela produtora Fernanda Bernieri. A atividade leiteira começou em 1998 como complemento da renda familiar e atualmente alcança cerca de 650 litros de leite por dia, em sistema de semiconfinamento.
Antes dos temporais, aproximadamente 70% da alimentação das vacas era composta por massa verde, enquanto os outros 30% eram fornecidos no cocho. Com os danos provocados pelo granizo, essa relação precisou ser praticamente invertida.
Trigo para silagem perde cerca de 70% da massa
Além das pastagens, o granizo atingiu uma lavoura de 14 hectares de trigo que seria utilizada para produção de silagem. Segundo Fernanda, restou aproximadamente 30% da área em condições de aproveitamento.
“Sobrou em torno de 30% dessa área”, relata.
O trigo ainda apresenta grãos em estágio leitoso, mas deverá ser cortado antes do planejado porque a palha começou a secar depois dos danos causados pelas pedras de gelo.
A perda representa menos alimento produzido dentro da própria fazenda justamente em um sistema que tinha forte participação das forragens na dieta dos animais.
Alimentação no cocho aumenta após perda das pastagens
Para compensar a redução da massa verde, a propriedade passou a fornecer um trato adicional às vacas, utilizando matéria seca, silagem e ração. O objetivo é manter a nutrição do rebanho e limitar os reflexos sobre a produção de leite.
A mudança, porém, elevou imediatamente as despesas.
“Isso tem um custo que é elevado para quem tinha pastagem abundante. Então, isso se tornou um custo a mais para a propriedade”, explica Fernanda.

A situação evidencia um dos efeitos indiretos dos eventos climáticos sobre sistemas de produção de leite baseados em pastagens. Quando a disponibilidade de forragem cai de forma repentina, o produtor precisa recorrer a alimentos armazenados ou comprados para manter a dieta, aumentando o custo por animal.
Produção de leite já registra queda
Mesmo com os ajustes na alimentação, a propriedade já percebe reflexos na produtividade. De acordo com Fernanda, houve redução de aproximadamente 0,6 litro de leite por vaca ao dia.
Assim, o impacto ocorre em duas frentes: enquanto aumenta a necessidade de fornecer alimento no cocho, a propriedade também enfrenta queda na produção.
“Tudo que a gente consegue fazer em relação a elas, para diminuir também o prejuízo e não perder produção de leite, a gente está fazendo”, afirma a produtora.
Segundo Fernanda, o manejo ajuda a reduzir os efeitos, mas não consegue compensar completamente as perdas provocadas pelo temporal.
“É óbvio que, do tamanho do impacto que a gente teve na propriedade, os prejuízos existem, sim, mas a gente está tentando manejar para que eles não sejam tão intensos”, acrescenta.
Dois temporais atingiram lavouras e estruturas

A propriedade enfrentou dois episódios de granizo em um intervalo de apenas dois dias. O primeiro ocorreu em 5 de setembro. Apesar de as pedras serem menores, o volume foi suficiente para danificar as pastagens e a lavoura de trigo.
Em 7 de setembro, uma nova tempestade atingiu a propriedade. Desta vez, as pedras eram maiores. O episódio teve menor duração e provocou menos perdas nas lavouras, mas causou estragos em estruturas utilizadas na atividade leiteira, incluindo o bezerreiro, a área de ordenha e a pista de ordenha.
“Uma danificou as lavouras, e a outra, que eram pedras mais grossas, danificou a estrutura”, resume Fernanda.
Milho para silagem vira principal preocupação
Depois das perdas nas pastagens e no trigo, a atenção da família agora está concentrada na lavoura de milho destinada à silagem. Toda a área já foi plantada e deverá fornecer parte importante da alimentação do rebanho nos próximos meses.
Uma nova ocorrência de granizo ou outro evento climático severo poderia comprometer essa reserva e ampliar ainda mais a necessidade de recorrer a alimentos externos.
“O que preocupa nós como propriedade é o milho, é vir mais chuva talvez, como a tendência do clima é ser severo, que mais chuvas de granizo ocorram e a gente tem todo o milho da silagem plantado”, afirma.
Para um sistema leiteiro com forte dependência das pastagens e da produção própria de volumosos, as duas tempestades mostram como os prejuízos climáticos podem avançar rapidamente para além da lavoura. A perda de forragem reduz a oferta de alimento, aumenta a necessidade de suplementação, pressiona os custos e pode afetar diretamente a quantidade de leite produzida.
Na propriedade Família Bernieri, o desafio agora é administrar os danos já registrados e garantir alimento suficiente para o rebanho, enquanto o desenvolvimento da lavoura de milho passa a ser decisivo para o planejamento alimentar dos próximos meses.
Fonte: Raquel Maria Cury Rodrigues / Milk Point
Curadoria: Camila Gusmão para o portal Boi a Pasto






