julho 9, 2026

Os impactos do El Niño na pecuária gaúcha

Especialistas afirmam que a atividade tem riscos comparáveis à agricultura, e sugerem medidas para prevenir e evitar prejuízos provocados pelas chuvas intensas.

Por Gustavo Paes para o portal Boi a Pasto

Pesquisadora e professora Soraya Tanure, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, (Ufrgs)

A pecuária bovina no Rio Grande do Sul está, assim como a agricultura, em regime de atenção máxima em 2026. A previsão de um fenômeno El Niño de forte a extrema intensidade faz da prevenção uma medida urgente para minimizar prejuízos no caso de um cenário pessimista para as próximas estações.

A pesquisadora e professora Soraya Tanure, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, (Ufrgs) alerta que o excesso de chuvas e altas temperaturas podem prejudicar a qualidade das pastagens e facilitar a erosão. “As chuvas intensas podem causar danos severos às pastagens. O principal impacto é a erosão hídrica, que carrega a camada superficial do solo, que é a mais fértil e tem maior concentração de nutrientes essenciais”, salienta. Além disso, alerta, o alagamento prolongado causa o sufocamento e apodrecimento das raízes, favorece o surgimento de pragas, e a força da água pode soterrar o pasto com lama ou areia.

Soraya ressalta que a umidade excessiva afeta severamente o rebanho ao debilitar a imunidade e criar o ambiente ideal para a proliferação de bactérias e parasitas. Uma das principais enfermidades no gado leiteiro é a podridão dos cascos (dermatite interdigital/necrobacilose). “A umidade e a lama amolecem a pele entre os cascos, facilitando a entrada de bactérias [como a Fusobacterium necrophorum]. Ela causa dor intensa, claudicação [mancar] e queda na produção”, explica.

Outros problemas comuns em vacas leiteiras são a mastite e as doençasrespiratórias (pneumonia bovina)”, enumera a especialista. Essas enfermidades exigem um planejamento sanitário e a vacinação contra doenças como a rinotraqueite infecciosa bovina (IBR) e a diarreia viral bovina (BVD). clostridioses, raiva e leptospirose. “As enchentes criam um ambiente ideal para a proliferação da Leptospira, aumentando significativamente os casos de leptospirose no gado”, diz Soraya. Segundo ela, a bactéria sobrevive por semanas ou meses em solos encharcados e água com pH neutro, causando graves problemas de saúde no rebanho e pesadas perdas econômicas.

Dias abafados e com alta umidade aumentam o estresse calórico nos animais, prejudicando o ganho de peso e a produção de leite e reduzindo a eficiência produtiva. Na pecuária leiteira não é diferente, pois as vacas em lactação são ainda mais sensíveis às mudanças de temperatura e o fenômeno El Niño costuma trazer, além de chuvas acima da média, temperaturas mais elevadas. “Essa combinação, aliás, favorece a proliferação de parasitas, fungos e bactérias, elevando a incidência de doenças”, pontua.

Enquanto acompanha os prognósticos atualizados sobre o fenômeno, o pecuarista pode adotar medidas para reduzir eventuais prejuízos. Essas ações, alerta Soraya, podem estar presentes no planejamento do produtor rural independentemente de fenômenos à vista. “Considerando a crescente frequência de eventos climáticos extremos, torna-se cada vez mais importante investir em práticas de manejo adaptadas e em sistemas produtivos mais resilientes, capazes de garantir a sustentabilidade e a competitividade da pecuária gaúcha no longo prazo”, ensina.

Um primeiro passo é atuar na gestão forrageira, com a diversificação das fontes de alimentação animal para reduzir a dependência exclusiva do pasto. Além disso, planejar com antecedência, utilizando ferramentas de gestão é um tema de casa para quem vive no campo. E essas ferramentas podem ser simples, começando por conhecer os números da propriedade e avaliando riscos e oportunidades.

Com o prognóstico de intensidade maior do fenômeno para a primavera, a especialista alerta que ainda há atividades que podem ser planejadas no momento. Um exemplo é garantir a reserva de silagem e feno, com compra antecipada permitindo a suplementação a campo nos períodos de maior precipitação e consequente pisoteio. Ainda sobre o solo e o impacto da movimentação dos animais, Soraya aponta que o manejo rotacionado “trata-se de uma prática simples que pode ser adotada por praticamente todos os produtores e evita o pisoteio excessivo e a degradação do solo”.

E o olhar permanente do produtor para o controle sanitário deve ficar ainda mais rigoroso com as previsões para a eventual vigência de um El Niño intenso. Afinal, ambiente úmido e quente é ideal para a proliferação de mosca-do-chifre e carrapato, que devem ser controlados para evitar anemia e transmissão de doenças como a tristeza parasitária bovina.

Manejo do solo

Especialistas afirmam que a atividade tem riscos comparáveis à agricultura, e sugerem medidas para prevenir e evitar prejuízos provocados pelas chuvas intensas

A pecuária bovina no Rio Grande do Sul está, assim como a agricultura, em regime de atenção máxima em 2026. A previsão de um fenômeno El Niño de forte a extrema intensidade faz da prevenção uma medida urgente para minimizar prejuízos no caso de um cenário pessimista para as próximas estações.

O fenômeno climático causa chuvas em maior volume e intensidade no Sul do Brasil. Pesquisas da Embrapa Pecuária Sul, de Bagé, na Campanha Gaúcha, mostram que essa situação afeta a pecuária por meio da redução da qualidade das pastagens, aumento da incidência de doenças fúngicas e desafios ao sistema reprodutivo dos animais, além de dificuldade de transporte, interrupções logísticas e perda de qualidade de insumos.

Para reduzir os impactos causados pelo aquecimento anormal do Oceano Pacífico, a Embrapa Pecuária Sul recomenda que os produtores redobrem a atenção ao manejo de nutrientes nas pastagens. A maior preocupação é evitar a perda de nutrientes móveis. “Com as chuvas em maior volume e intensidade, existe maior potencial de perda do nitrogênio por lixiviação para as camadas mais profundas do solo”, explica o pesquisador Tales Tiecher (foto).

O especialista destaca que uma das principais estratégias para aumentar a eficiência do uso do nitrogênio é o fracionamento da adubação nitrogenada, evitando a aplicação de toda a dose de uma única vez. “O nitrogênio é o nutriente mais exigido pelas gramíneas e tem papel fundamental no crescimento das pastagens. Ele é vital para a formação de proteínas e clorofila essencial para a fotossíntese, influenciando diretamente a produção de forragem”, ressalta, observando que o fertilizante nitrogenado registrou uma alta nos preços impulsionada pela instabilidade internacional e guerras no Oriente Médio.

Por outro lado, para nutrientes menos móveis no solo, como o fósforo e potássio, Tiecher diz que em áreas onde fertilizantes fosfatados e potássicos são aplicados a lanço, esses nutrientes ficam concentrados nos primeiros centímetros de solo e podem ser perdidos pelo escoamento superficial da água que não infiltra no solo, ocasionado pelas chuvas intensas. Para diminuir as perdas de fósforo e potássio é recomendado que a adubação desses nutrientes seja feito no sulco ou na linha de plantio.

O pesquisador lembra que a maior frequência e intensificação dos fenômenos climáticos é uma realidade e diz que o produtor precisa estar preparado. “O ideal é que esse manejo seja aperfeiçoado pelo produtor a cada ano, com monitoramento frequente da fertilidade via análises de solo, buscando também uma correção do solo em profundidade, e não apenas na superfície do solo (<10 cm), garantindo assim um crescimento de raízes mais robusto que aumenta a capacidade das plantas absorverem nutrientes móveis como o nitrogênio em profundidade, e evita perdas de nutrientes menos móveis como o fósforo e potássio por escoamento superficial”, completa.

Cautela na interpretação dos prognósticos climáticos

Apesar dos alertas dos meteorologistas, dirigentes do setorevitam fazer previsões catastróficas. A presidente do Instituto Desenvolve Pecuária, Antonia Scalzilli defende cautela na interpretação dos prognósticos climáticos. “O momento é de monitoramento e preparação, não de alarmismo. Historicamente, o El Niño está associado a chuvas acima da média no Rio Grande do Sul, o que pode trazer desafios de manejo, mas também benefícios, como a recuperação das pastagens após sucessivos períodos de estiagem”, salienta.

Presidente do Instituto Desenvolve Pecuária, Antonia Scalzilli

Se efetivamente chegar, o El Niño deve provocar chuvas intensas e temperaturas acima da média. Essa combinação pode provocar a compactação do solo pelo pisoteio excessivo do gado e a degradação das pastagens. “Com as chuvas intensas a temperatura deverá estar acima da média e a umidade muito alta. Isso favorece o aparecimento de doenças nos cascos dos animais, principalmente dos ovinos. O mal tempo ainda causa problemas de logística, pois os acessos ficam interrompidos e os criadores não conseguem levar insumos ou os animais para os frigoríficos”, pontua.

Antonia ressalta que os produtores rurais precisam se planejar. Entre as recomendações estão construir sistemas mais flexíveis, garantir estoques de silagem e feno, avaliar sistemas de drenagem, reforçar os protocolos sanitários, ofertar sombra natural ou artificial e água fresca em abundância e ajustar a carga dos animais nas pastagens.

E, é claro, acompanhar regularmente os boletins meteorológicos. “As sucessivas enchentes e estiagens mostrram que os produtores gaúchos são resilientes. Já aprendemos a conviver com a falta de chuva. Agora, precisamos estar preparados também para o excesso”, destaca a dirigente, que é advogada e criadora de Angus e Brangus em propriedades em Bagé e Cacequi,

O presidente do Sindicato Rural de Dom Pedrito, Rodrigo Zamberlan Coradini, também prefere esperar por uma definição de como o fenômeno climático se desenvolverá. “Acredito [a definição] que isso só acontecerá entre julho e agosto. Até lá, será preciso seguir monitorando a evolução do fenômeno”, declara.

Ele diz que a pecuária de corte na Campanha Gaúcha sofre menos com os efeitos do excesso de chuvas do que a agricultura. “Mesmo nas enchentes que atingiram o estado em 2024, os municípios da Metade Sul não tiveram cheias. E chuva é sempre melhor do que a estiagem. O pecuarista perde por um lado, mas ganha por outro, pelo bom desenvolvimento das pastagens”, argumenta.

O dirigente admite, porém, que em alguns casos, as chuvas extremas provocam dificuldade de transporte e interrupções logísticas e exige dos produtores a transferência do gado bovino para partes mais altas da propriedade. “Também aumenta a incidência de ectoparasitas, como o carrapato, mas nada muito fora do normal”. afirma Coradini.

O município se sobressai na pecuária de corte. Dom Pedrito  conta com um rebanho de aproximadamente 350 mil cabeças de bovinos e 150 mil de ovinos e é um importante polo produtor de genética, com destaque para as raças Angus, Hereford e Braford, além de cavalos crioulos e ovinos. “Dom Pedrito é quem mais vende gado gordo no Rio Grande do Sul”, completa Coradini.

Geradores nas propriedades

O presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), Marcos Tang, está torcendo para que, desta vez, o fenômeno climático El Niño não provoque destruição como na enchente de 2024, que devastou a pecuária leiteira gaúcha, afetando mais de 7 mil produtores e cerca de 50% dos estabelecimentos do setor.

“A gente espera que o fenômeno não venha com tanta força, esse Super El Niño, observa. “Mas os produtores que tiveram condições mudaram suas instalações para lugares mais altos e estão investindo na produção de feno e pré-secado e até mesmo soltando as vacas nas pastagens de azevém e aveia”, declara o dirigente.

Tang, que tem propriedade leiteira em Farroupilha, na Serra Gaúcha, recomenda ainda que os produtores tenham na propriedade geradores de energia. “Ter um gerador de energia na pecuária leiteira é vital para evitar prejuízos severos. O equipamento garante a continuidade da ordenha mecânica e o resfriamento imediato do leite, protegendo o produtor contra quedas na rede pública de eletricidade”, acrescenta o criador, que também preside a Federação Brasileira das Associações de Criadores de Animais de Raça (Febrac).

Por Gustavo Paes para o portal Boi a Pasto

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