setembro 15, 2026

Mudanças climáticas exigem manejo mais resiliente para reduzir riscos nas lavouras

Diversificação de culturas, cobertura do solo, plantio direto e análise de riscos estão entre as estratégias apontadas por pesquisadores para aumentar a capacidade dos sistemas agrícolas de enfrentar eventos climáticos adversos.

Foto de Rick van der Haar na Unsplash

As mudanças climáticas estão ampliando os desafios para a produção agrícola ao alterar o regime de chuvas, as temperaturas e até mesmo as relações entre culturas, pragas, plantas daninhas e inimigos naturais. Diante desse cenário, pesquisadores defendem que o planejamento das propriedades considere não apenas a produtividade, mas também a capacidade das lavouras de resistir e se recuperar de períodos de estresse.

A discussão faz parte de um artigo do professor Fabian Menalled, da Montana State University, em conjunto com outros pesquisadores. No Brasil, o tema foi apresentado por Décio Luiz Gazzoni, engenheiro agrônomo, membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica e do Conselho Científico Agro Sustentável.

Diversificação pode aumentar capacidade de recuperação

De acordo com os pesquisadores, a resiliência está relacionada à capacidade dos agroecossistemas de suportar perturbações, recuperar suas funções e se adaptar às novas condições. Com eventos climáticos mais intensos ou frequentes, essa característica ganha importância no planejamento da produção.

Sistemas agrícolas excessivamente simplificados e muito dependentes de insumos externos podem apresentar maior vulnerabilidade diante de determinadas situações adversas. A diversificação, por outro lado, amplia as possibilidades de resposta da propriedade quando ocorrem alterações ambientais.

Entre as estratégias apontadas estão a rotação de culturas, manutenção de cobertura vegetal, plantio direto e integração entre diferentes atividades produtivas. Além de benefícios já associados à conservação do solo e da água, essas práticas podem contribuir para aumentar a capacidade do sistema de atravessar períodos de estresse e retomar seu funcionamento.

Os pesquisadores também fazem uma distinção entre resistência e resiliência. Enquanto a resistência representa a capacidade de um sistema suportar determinada perturbação sem sofrer grandes alterações, a resiliência está relacionada à recuperação e à adaptação depois que o impacto já ocorreu.

Análise de risco entra no planejamento

Outro ponto abordado pelo estudo é a adoção de análises quantitativas de risco para comparar estratégias de manejo. A proposta parte do princípio de que uma mesma alteração ambiental pode provocar consequências diferentes dependendo das condições climáticas, das características da propriedade, dos organismos presentes no agroecossistema e das práticas adotadas pelo produtor.

Com isso, o planejamento agrícola passa a considerar não apenas qual sistema apresenta melhor desempenho em condições consideradas normais, mas também qual possui maior capacidade de enfrentar secas, excesso de chuvas, temperaturas extremas ou outros tipos de perturbação.

Essa abordagem pode ajudar na escolha de estratégias capazes de reduzir a vulnerabilidade da produção e tornar as decisões de manejo mais preparadas para cenários de maior instabilidade climática.

Adaptação vai além da porteira

A capacidade de adaptação da agricultura, no entanto, não depende somente das decisões tomadas dentro da propriedade. Segundo os pesquisadores, fatores econômicos, sociais e políticos também influenciam a forma como os sistemas produtivos conseguem responder às mudanças climáticas.

O estudo destaca a importância de uma governança que envolva diferentes atores na tomada de decisões, incluindo produtores, pesquisadores, instituições públicas e demais integrantes das cadeias de alimentos. A participação de diferentes setores pode facilitar a elaboração de estratégias adaptadas às realidades regionais e aos diferentes sistemas de produção.

Nesse contexto, políticas públicas, pesquisa, assistência técnica e instrumentos de gestão de risco também assumem papel importante para apoiar a adaptação do setor agrícola.

A proposta dos pesquisadores é integrar práticas de manejo, diversificação dos sistemas produtivos, avaliação de riscos e políticas de adaptação. Em um cenário de maior variabilidade climática, a capacidade de resistir, recuperar-se e adaptar-se tende a se tornar tão importante para a agricultura quanto os ganhos de produtividade.

Fonte: Deuseane Queiroz / Agro Em Campo
Curadoria: Marisa Rodrigues para o portal Boi a Pasto

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