outubro 28, 2026

Produção agropecuária que preserva o Pampa

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50%

Pecuaristas interessados em integrar a Alianza del Pastizal precisam atender requisitos, como manter ao menos 50% da área com campo nativo e alimentação animal à base de pasto

Levantamento da avifauna realizado pela Alianza del Pastizal em propriedades monitoradas no bioma Pampa identificou 298 espécies de aves na região, das quais 88 são campestres, 61 migratórias e 24 espécies ameaçadas ou quase ameaçadas de extinção. O estudo, que utiliza as aves como bioindicadores da conservação do campo nativo, é realizado desde 2014 pela entidade, uma iniciativa internacional que reúne produtores rurais, organizações ambientais, universidades, centros de pesquisa, governos, técnicos, associações de produtores, instituições de fomento, entre outros.

A iniciativa surgiu há 20 anos liderada pela união da BirdLife International e suas entidades parceiras no Cone Sul: SAVE Brasil (Brasil), Aves Argentinas (Argentina), Aves Uruguay (Uruguai) e Guyrá Paraguay (Paraguai). O objetivo central da Alianza é conservar os campos nativos e sua rica biodiversidade, especialmente as aves campestres que dependem desses ambientes. Para isso, a iniciativa incentiva a pecuária sobre campo nativo, associada à adoção e difusão de boas práticas de manejo, como uma ferramenta para manter esses campos produtivos e conservados, fortalecendo também a competitividade dos produtores frente a outras alternativas de uso do solo que vem avançando na região como as lavouras de soja e silvicultura de espécies exóticas e que também sofre pressão da mineração.

O bioma Pampa é formado por grandes extensões de campos naturais que vão do sul do Rio Grande do Sul até a Argentina e Uruguai. No território brasileiro, a área ocupada pelo Pampa é de 2,3% da superfície total do País, o equivalente a 176.496 quilômetros quadrados. A cobertura do Pampa corresponde a 63% de toda a área do Rio Grande do Sul, único estado brasileiro que abriga uma parte do bioma. “A situação do Pampa é muito preocupante”, admite o engenheiro agrônomo e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Carlos Nabinger, que integra a mesa diretiva da Alianza del Pastizal/Brasil.

“A Alianza del Pastizal nasceu da necessidade de proteger o ecossistema terrestre mais ameaçado do planeta, que são os campos nativos”, destaca o coordenador nacional da entidade, o engenheiro agrônomo e mestre em engenharia ambiental Pedro Brites Pascotini. “Nosso objetivo é promover sistemas de produção agropecuária mais eficientes que funcionem em harmonia com o bioma Pampa, mantendo e aumentando os serviços ecossistêmicos prestados, com foco na monetização destes serviços, explorando o potencial de incentivos aos produtores e outros mecanismos de pagamento por serviços ambientais, além de agregar valor aos produtos do Pampa”, acrescenta o dirigente.

Requisitos para ser membro

Os integrantes do projeto criaram um programa de certificação das propriedades rurais para diferenciar aqueles que se preocupam com o tema, trazendo uma referência ao consumidor. Para ser uma propriedade certificada da Alianza é necessário atender a alguns requisitos, como a fazenda estar localizada no bioma Pampa e ter ao menos 50% de campo nativo da área total da propriedade.

Outra exigência é que a alimentação animal seja feita à base de pasto, sendo admissível suplementação com um limite máximo de concentrados na dieta de 1,2% do peso vivo/dia, em ausência

total de alimentação em confinamento no sistema de produção e a estância precisa atender condições de bem-estar animal. Após o pecuarista fazer a entrega dos documentos, um técnico certificador da Alianza realiza a visita de vistoria da propriedade e confere a documentação.

Atualmente, a iniciativa conta com 445 membros em 56 municípios do bioma Pampa no estado. Onde soma uma área total de 306.818 hectares, dos quais 218.855 hectares são de campos nativos conservados. “O número de membros vem crescendo de forma significativa. Em 2017, eram 72. No ano seguinte, o número passou para 123 e, hoje, são 445”, destaca Pascotini.

Quem participa tem a possibilidade de receber monitoramento da biodiversidade, especialmente das aves que habitam no Pampa, pois elas são um indicador biológico de ambientes saudáveis. Além de monitorar aves, a entidade também começou a registrar recentemente a variedade de animais e flora. Há três anos ela mantém uma parceria com o projeto Felinos do Pampa para identificar os animais por meio de armadilhas fotográficas.

E, durante a 49ª Expointer, de Esteio (RS), a Alianza lançou oficialmente o projeto Aves do Pampa – Turismo de Observação em Campos Nativos. “O objetivo é estruturar rotas e experiências de observação de aves [birdwatching] em dez propriedades rurais no bioma Pampa, unindo a preservação dos campos nativos à geração de renda complementar para o produtor rural”, explica o coordenador nacional.

Melhoramento dos campos nativos

As propriedades certificadas Alianza del Pastizal, por meio de parcerias institucionais, são contempladas com informações técnicas para o manejo e melhoramento do campo nativo, buscando a maior eficiência da atividade pecuária. A Alianza atua com conceito de unidades demonstrativas, onde uma propriedade

privada atua como polo de difusão tecnológica, por meio de dias de campo para compartilhamento de informações.

E está montando um projeto em parceria com o Sebrae-RS para produtores-membros com intuito de levar consultorias técnicas para o aperfeiçoamento da produção pecuária em pastagens nativas do Pampa, com práticas sustentáveis, bem como estruturação do planejamento e gestão das propriedades.

A Alianza também desenvolve, em parceria com o BRDE e com recursos do FFEM e da AFD, um modelo de blended finance que combina crédito rural e incentivos financeiros não-reembolsáveis aos produtores. O mecanismo busca viabilizar investimentos que aumentem a eficiência das propriedades e, ao mesmo tempo, favoreçam a conservação dos campos nativos.

Além disso, a Alianza tem um programa de carne certificada em parceria com o Frigorífico Campeiro, de Rosário do Sul (RS), onde os produtores-membros (que estejam de acordo com o Protocolo de Certificação de Estabelecimento Rural e critérios de raça, idade e acabamento) vem recebendo, nos animais vendidos para o programa de carne da entidade, em média uma valorização de 3,9% dos preços máximos de mercado do estado. A equipe da Alianza também conta com um núcleo de negócios para promoção comercial e análise de mercados para outros produtos alinhados à conservação dos campos, além da carne bovina, como mel, azeite, vinhos e ovinos etc.

Combate ao javali e capim annoni

Um dos projetos já desenvolvidos pela Alianza foi o Pró-APA Sustentável. O projeto tinha como principal objetivo a redução da degradação da biodiversidade em áreas prioritárias de campos nativos dentro da APA de Ibirapuitã, em Santana do Livramento, Alegrete, Quaraí e Rosário do Sul por meio do combate direto e prevenção da invasão do capim annoni (Eragrostis plana) e controle populacional de javalis (Sus scrofa).

Caravana Pampa

De 9 a 13 de novembro, a iniciativa é co-realizadora da inédita Caravana Pampa, que percorrerá três países – Argentina, Brasil e Uruguai. Em cinco dias, produtores, pesquisadores e técnicos dos três países percorrerão 1,8 mil quilômetros, passando por quatro propriedades e outras quatro estações experimentais.

E, em 17 de dezembro, será a vez do dia de campo sobre o Nativão, que completa 40 anos de experimentação em pastagens naturais. Onde a Alianza é apoiadora do evento organizado pelo Grupo de Pesquisa em Ecologia do Pastejo – GPEP da Ufgrs. A atividade, que está integrada ao Ano Internacional das Pastagens e dos Pastoralistas (IYRP 2026), será realizada na Estação Experimental Agronômica da Ufrgs, em Eldorado do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre.

Trabalho de preservação reconhecido

A Estância Santa Branca, localizada em Bagé, na Campanha Gaúcha, é certificada pela Alianza del Pastizal pelo trabalho de conservação e manejo do bioma Pampa. A propriedade, que é administrada pelo publicitário, gestor e produtor rural Eduardo Braga Botelho, foca na pecuária de ciclo completo e é sinônimo de eficiência, organização, técnicas aplicadas à pecuária na ovinocultura e bovinocultura, tradição aliada à inovação.

A propriedade tem uma área total de 1.653 hectares, sendo que a área útil (sem considerar sangas, banhados, áreas de preservação permanente e Reserva Legal) fica em 1.424 hectares. “Desta área útil, temos 68% de campo nativo, 13% de campo nativo melhorado e 9% de pastagens anuais”, revela o pecuarista, de 50 anos.

A fazenda teve seu início há 60 anos inicialmente com a produção de lã e, hoje, a quinta e sexta gerações com o criador Eduardo Botelho e filhos, foca na ovinocultura e a bovinocultura na produção de carne. O plantel ovino é de 350 cabeças. O criador

tem na ovinocultura o foco para produção de cordeiros para abate, trabalhando os cruzamentos das raças texel e hampshire down. Na bovinocultura de corte, a propriedade aposta na criação das raças hereford e red angus e, assim como na ovinocultura, trabalha com todas as fases (cria, recria e engorda). O rebanho conta com cerca de 600 cabeças.

A propriedade bageense integra a Alianza del Pastizal desde 2020 e, nesse período, participou de dois monitoramentos da avifauna. No primeiro, em 2020/2021 e em 2024/2025, foram identificadas 127 espécies na Estancia Santa Branca. Ao final do trabalho, realizado em 16 propriedades, foram listadas 233 espécies. “A maioria foi identificada aqui na estância e a presença dessas aves é um indicador da biodiversidade, da preservação do campo nativo”, finaliza o produtor.

Fonte: Alianza Del Pastizal

Curadoria: redação do portal Boi a Pasto

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