setembro 17, 2026

Cota chinesa eleva custos dos frigoríficos e acende alerta para preços do boi

Indústria busca novos destinos após atingir limite de vendas à China e defende distribuição gradual dos embarques em 2027 para dar maior previsibilidade ao mercado pecuário

Luciano Pascon, da Frigol: “Mesmo tendo outros destinos para fazer [venda de carne bovina], isso encarece o processo industrial’ — Foto: Wenderson Araújo/CNA

O preenchimento da cota brasileira de exportação de carne bovina para a China está obrigando os frigoríficos a diversificar destinos e adaptar a produção para atender diferentes mercados, movimento que aumenta os custos da indústria. A avaliação é de Luciano Pascon, CEO da Frigol, durante evento da Datagro realizado nesta última quarta-feira (16), em São Paulo.

A China estabeleceu para 2026 uma cota de importação de carne bovina com tarifa reduzida. O volume destinado ao Brasil, de 1,106 milhão de toneladas, foi preenchido ainda em julho. Com isso, frigoríficos brasileiros passaram a direcionar uma parcela maior da produção a outros compradores.

Segundo Pascon, embora existam mercados alternativos para a carne brasileira, a diversificação exige mudanças no processo industrial, uma vez que cada destino pode demandar cortes, especificações e padrões diferentes.

“Mesmo tendo outros destinos para fazer venda de carne bovina, isso encarece o processo industrial. Uma coisa é ter dez clientes na China e produzir no mesmo padrão, outra é ter dez a 15 clientes de outros países e produzir coisas diferentes”, afirmou.

De acordo com o executivo, o aumento das despesas nem sempre consegue ser transferido aos compradores. “Isso aumenta o custo, e o repasse de preços é muito menor. A China é de longe o carro-chefe das nossas margens”, acrescentou.

Retomada das compras exige cautela

A expectativa do setor é de que importadores chineses retomem as compras de carne brasileira em outubro, já considerando os embarques que chegarão ao país asiático em janeiro e serão contabilizados na cota de 2027.

Para Pascon, entretanto, uma retomada concentrada das vendas pode provocar novas distorções. A estratégia considerada mais adequada seria distribuir os embarques ao longo do próximo ano, evitando uma oferta excessiva em um curto período.

“Se fizermos isso, haverá uma pressão sobre os preços. Pode até ter uma reação no preço do boi, mas seis meses depois a cota se esgota”, disse.

Na avaliação do executivo, uma distribuição mais equilibrada das exportações durante o ano poderia diminuir períodos de forte oscilação e trazer maior previsibilidade também para o pecuarista.

“O melhor cenário seria distribuir os volumes ao longo do ano. Assim conseguiríamos dar segurança ao produtor de que não haveria período de baixa e conseguiríamos preços relativamente elevados com a China”, afirmou.

Mercado interno também preocupa

Além das incertezas envolvendo as exportações, a demanda brasileira por carne bovina aparece como outro ponto de atenção para a indústria em 2027.

O CEO da Plena Alimentos, Paulo Emilio, afirmou durante o evento que acompanha com preocupação o nível de endividamento da população e seus possíveis reflexos sobre o consumo doméstico.

Segundo o executivo, 60% dos funcionários da própria empresa contrataram crédito consignado, situação que ele utiliza como um indicador da pressão financeira enfrentada pelas famílias.

“É uma preocupação grande para o ano que vem, pode trazer uma surpresa negativa”, afirmou.

O cenário coloca exportações e consumo interno no centro das atenções da cadeia da carne bovina. Enquanto a indústria busca ampliar e diversificar mercados externos, o ritmo das compras chinesas e o comportamento da demanda doméstica deverão continuar influenciando as estratégias dos frigoríficos e a dinâmica do mercado pecuário em 2027.

Fonte: Clarice Couto / Globo Rural
Curadoria: Camila Gusmão para o portal Boi a Pasto

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