setembro 17, 2026

Pasto precisa acompanhar evolução genética do gado para pecuária produzir mais, diz pesquisador

Pesquisador da Embrapa Cerrados afirma que modernização das pastagens precisa acompanhar avanços na genética e no desempenho dos bovinos para ampliar a produção de carne por hectare

A pecuária brasileira avançou nas últimas décadas em genética, reprodução, nutrição e desempenho dos animais, mas parte das pastagens não acompanhou a mesma velocidade de transformação. Esse descompasso pode limitar o ganho de peso, a lotação das áreas e a quantidade de carne produzida por hectare.

A avaliação é do pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados, que discutiu o papel das forrageiras durante a 34ª Expoabra, realizada no Parque de Exposição Granja do Torto, em Brasília.

“O boi mudou. O boi de hoje não é o mesmo animal de 40, 50 anos atrás. E quando falamos de forrageira e pastagem, estamos falando de tecnologia de ponta. Não se trata apenas de capim”, afirmou.

Durante o painel “Desafios e oportunidades na pecuária de corte”, Ayres chamou atenção para a necessidade de tratar a pastagem como um componente tecnológico do sistema de produção. Na avaliação do pesquisador, a escolha da forrageira interfere diretamente na capacidade de suporte da propriedade, no desempenho animal, na idade de abate e na produção de carne por hectare.

Pecuária brasileira começa no pasto

O peso dessa discussão pode ser dimensionado pela extensão das áreas destinadas à atividade. O Brasil possui 160,5 milhões de hectares de pastagens, sendo 62,7 milhões de hectares localizados no Cerrado.

Além disso, dados apresentados pelo pesquisador, com base na Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), mostram que 80,14% dos bovinos abatidos no país em 2025 foram terminados a pasto.

“E onde começa a nossa pecuária? Não tenho dúvida de que, assim como em outros países, ela começa no pasto”, destacou Ayres.

Segundo o pesquisador, a forte participação das pastagens na produção brasileira também poderia ser melhor explorada comercialmente diante das exigências dos consumidores por informações sobre a origem e os sistemas utilizados na produção da carne.

Escolha da forrageira ainda passa pelo preço

Apesar da importância do pasto para o desempenho do rebanho, Ayres avalia que a escolha da cultivar nem sempre recebe a mesma atenção dispensada à genética dos animais.

Segundo ele, o preço da semente ainda exerce forte influência na decisão do produtor, embora represente aproximadamente 10% do custo total de implantação da pastagem, considerando as diferentes operações necessárias.

“Em 2026 ainda estamos usando cultivares do século passado, desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990 com a lógica de um boi que não existe mais”, afirmou.

A estimativa apresentada pelo pesquisador é de que cerca de 80% das cultivares forrageiras utilizadas atualmente pela pecuária brasileira sejam tecnologias consideradas defasadas.

A questão, segundo Ayres, não significa simplesmente trocar uma espécie ou cultivar por outra. A decisão deve levar em consideração as características do solo e do clima, a categoria animal, a genética do rebanho, o manejo e o grau de intensificação adotado na propriedade.

Novas cultivares podem ampliar retorno da área

Durante a apresentação, Ayres mostrou resultados de materiais desenvolvidos pela Embrapa em parceria com a Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto).

Entre as cultivares apresentadas estão BRS Carinás, BRS Paiaguás, BRS Zuri, BRS Tamani, BRS Quênia e BRS Sarandi. Os materiais foram utilizados para demonstrar como o melhoramento genético das forrageiras pode responder a desafios como menor produção durante a seca, ocorrência de pragas e doenças, qualidade nutricional e períodos de transição entre as estações.

Nos experimentos apresentados, a BRS Paiaguás registrou ganho 7% superior ao da BRS Piatã, diferença equivalente a R$ 1.035 por hectare ao ano. Já a comparação entre BRS Carinás e Basilisk indicou vantagem de 13%, equivalente a R$ 483 por hectare ao ano.

A BRS Tamani apresentou ganho 9% superior ao da Massai, com diferença estimada em R$ 1.593 por hectare ao ano. Para a BRS Quênia, a vantagem apresentada em relação à Mombaça chegou a 17%, ou R$ 3.243 por hectare ao ano.

No caso da BRS Sarandi, indicada para condições que incluem solos de menor fertilidade e sistemas de cria e recria, a diferença apresentada foi de 20% em relação à BRS Planaltina, equivalente a R$ 1.275 por hectare ao ano.

Os resultados correspondem às condições específicas dos experimentos apresentados e, portanto, não significam que os mesmos ganhos econômicos serão automaticamente obtidos em todas as propriedades.

Para Ayres, entretanto, os números mostram que a análise do custo da pastagem não deveria ficar restrita ao preço pago pela semente. É necessário considerar quanto aquela cultivar poderá produzir durante todo o período de utilização da área.

Maioria das propriedades está abaixo da produtividade média

Outro desafio apontado pelo pesquisador está na produtividade. Dados apresentados durante a palestra indicam uma média nacional de 67,7 quilos de carcaça por hectare ao ano.

Segundo Ayres, 76% dos produtores — cerca de 1,12 milhão de propriedades — estariam abaixo desse indicador.

Os índices reprodutivos também mostram espaço para avançar. O país possui 65,6 milhões de matrizes de corte aptas à reprodução, mas a taxa média de natalidade apresentada é de aproximadamente 60%, enquanto o desfrute está em 19%.

A estimativa é de que 26,3 milhões de matrizes permaneçam vazias a cada ano. Além de não produzirem bezerros, esses animais continuam gerando despesas dentro da propriedade.

Uma simulação apresentada durante a palestra mostrou que elevar a taxa de desmame de 60% para 80% poderia acrescentar 16,4 milhões de bezerros à produção brasileira.

Em uma fazenda com 100 vacas, por exemplo, isso significaria passar de 60 para 80 bezerros. Considerando animais de 12 meses, com 285 quilos e valor médio de R$ 3.400 na simulação apresentada, os 20 animais adicionais representariam cerca de R$ 68 mil em receita.

Boi mais precoce exige pastagem mais eficiente

A evolução do desempenho dos animais reforça a necessidade de adequação da base forrageira. Nos sistemas tradicionais apresentados por Ayres, o peso médio de carcaça variava entre 210 e 220 quilos, com abate entre 36 e 42 meses e rendimento de carcaça de 50% a 52%.

Nos sistemas considerados modernos, os números passaram para 290 a 310 quilos de carcaça, idade de abate entre 18 e 24 meses e rendimento entre 54% e 56%.

A mudança representa animais mais pesados chegando ao abate em menos tempo. Para alcançar esse desempenho, porém, genética animal e alimentação precisam avançar de maneira conjunta.

“Se o boi mudou, temos que mudar o pasto também”, resumiu o pesquisador.

Para Ayres, o aumento da produção brasileira deverá depender cada vez mais do melhor aproveitamento das áreas já utilizadas pela pecuária. Nesse cenário, cultivar, fertilidade do solo, manejo, taxa de lotação e desempenho animal precisam ser considerados como partes de uma mesma estratégia.

“Não é só capim: é tecnologia de ponta. São anos de pesquisa. Seu pasto precisa produzir mais, durar mais, responder melhor ao manejo, sustentar mais animais, gerar mais arrobas e entregar mais resultado”, concluiu.

Fonte: O Presente Rural com Embrapa Cerrados
Curadoria: Camila Gusmão para o portal Boi a Pasto

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