agosto 4, 2026

Estudo revela que cana-de-açúcar remove mais carbono da atmosfera do que se pensava

Método desenvolvido por pesquisadores da Embrapa substitui valores internacionais genéricos por dados que refletem solo, clima e manejo do Brasil

Pesquisadores da Embrapa e colaboradores desenvolveram um método mais preciso para estimar os estoques de carbono na biomassa da cana-de-açúcar cultivada no Brasil. O estudo foi publicado na revista científica GCB Bioenergy. E propõe um fator de conversão específico para a cultura brasileira, capaz de calcular o carbono armazenado a partir da produtividade agrícola e de considerar diferenças regionais, temporais e de manejo entre as safras. A metodologia amplia a precisão das avaliações sobre o papel da bioenergia na mitigação das mudanças climáticas.

Segundo Thayse Hernandes, bolsista da Embrapa Meio Ambiente, a proposta responde a uma limitação importante das avaliações internacionais. Os valores padrão (default) usados atualmente não captam a diversidade brasileira de solos, clima, sistemas de manejo e produtividade. “Ao incorporar dados nacionais, a metodologia reduz incertezas em estudos de mudança direta do uso da terra, conhecida pela sigla DLUC, e oferece base técnica mais robusta para inventários de gases de efeito estufa, avaliações de ciclo de vida e políticas públicas”, afirma a pesquisadora.

Novo fator reduz incertezas nos cálculos

Para chegar ao novo indicador, a equipe revisou a literatura científica sobre parâmetros de biomassa da cana-de-açúcar no Brasil. Nilza Patrícia Ramos, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, explica que o principal resultado do trabalho foi a definição do CFSUG, fator de carbono da biomassa da cana, estimado em 0,133, com incerteza relativamente baixa.

“O fator permite estimar o estoque de carbono ao multiplicá-lo pela produtividade da cultura, captando diferenças entre municípios, safras e regiões produtoras. Com base na média de produtividade de dez anos, o estudo estimou o estoque nacional de carbono na biomassa superior ao valor de referência do IPCC e com incerteza menor”, destaca Ramos.

Aplicação do método aponta remoção líquida de carbono

Ao aplicar o novo fator às mudanças diretas do uso da terra associadas à cana-de-açúcar entre 2000 e 2019, os pesquisadores identificaram um balanço negativo de CO₂, o que indica remoção líquida de carbono da atmosfera. A média estimada ficou em aproximadamente -4,8 milhões de toneladas de CO₂ por ano, com faixa de incerteza entre -9,1 e -0,5 milhões de toneladas anuais.

Com o fator proposto, 62% dos municípios produtores de cana registraram remoção de carbono. Ou seja, uma proporção superior à observada em estudos anteriores, que usavam valores padrão internacionais. A diferença reforça a importância de dados regionalizados para evitar superestimações ou subestimações dos efeitos ambientais da expansão da cultura.

Setor produtivo e formuladores de políticas podem usar os dados

Os benefícios climáticos da bioenergia dependem de uma contabilização adequada das emissões e remoções ligadas à produção agrícola. Por isso, os autores recomendam o uso do CFSUG em cálculos de balanço de CO₂ associados à DLUC. Principalmente em inventários de gases de efeito estufa, estudos de avaliação do ciclo de vida, programas de certificação de biocombustíveis e políticas de descarbonização.

Além dos inventários nacionais, as novas estimativas podem apoiar decisões de empresas, produtores rurais, certificadoras e formuladores de políticas públicas. Como o fator proposto se aplica diretamente à produtividade, a metodologia permanece flexível e admite atualizações conforme surgem novas informações de manejo e produção.

Metodologia pode inspirar outros países produtores

O estudo reforça que avaliações ambientais da cana-de-açúcar precisam considerar a realidade dos sistemas produtivos brasileiros. Ao substituir estimativas amplas por parâmetros ajustados ao contexto nacional, o trabalho amplia a compreensão sobre o papel da cultura na bioeconomia e na transição energética.

Embora voltada ao Brasil, a abordagem pode inspirar metodologias semelhantes em outros países produtores de biomassa para energia. Com dados mais representativos, pesquisadores e formuladores de políticas conseguem avaliar de forma mais equilibrada os impactos da cana-de-açúcar sobre o clima, reconhecer situações de remoção líquida de carbono e orientar decisões mais consistentes para a transição energética.

Por Henrique Rodarte – Agro Em Campo

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